A IGREJA CRISTÃ MARANATA

Por Renato Pompeu


Mais um trabalho meu do curso de História.

Atividade
Devemos considerar que não existe uma sociedade desprovida de qualquer forma de religião, ainda que as crenças e as práticas variem de cultura para cultura.

Descreva o fenômeno religioso sob uma perspectiva antropológica. Para tanto, escolha uma manifestação religiosa presente na sociedade brasileira. Você deve mostrar o que esta representa na sociedade, qual é o seu rito, quais são seus valores estéticos e morais, quais são seus símbolos e significados; enfim, uma descrição do comportamento religioso como fenômeno social.

Escolha
Morando há dez anos seguidos no Cambuci, bairro da zona central de São Paulo, fiquei conhecendo um grupo de mulheres empregadas domésticas que ali moram e trabalham, ligadas entre si tanto por parentesco como por amizade, todas originárias de regiões rurais da Bahia, onde trabalhavam na roça, e que me chamaram a atenção por estarem sempre de bom humor, serem muito trabalhadeiras, e de um comportamento ético impecável, além de educarem muito bem as suas crianças. Fiquei sabendo que eram fiéis da Igreja Cristã Maranata e com o tempo foram ascendendo socialmente, pelo estudo formal ou profissionalizante, completando o curso secundário e mesmo universitário, tornando-se balconistas de padaria, vendedoras de cosméticos, cabeleireiras, esteticistas em geral, atendentes de creche com diploma em Pedagogia, etc. Quando foi proposta a presente Atividade, não tive dúvida em escolher a Igreja Cristã Maranata da Aclimação, bairro vizinho ao Cambuci, frequentada por essas antigas domésticas, como a manifestação religiosa presente na sociedade brasileira objeto do meu trabalho.

O que a Igreja Cristã Maranata representa na sociedade
Segundo o pastor Ubirajara Torres Correia e Cunha, “Maranata” significa, em aramaico, “Ora, venha o Senhor Jesus”. A Igreja foi fundada em 1967 em Vila Velha, no Espírito Santo, por antigos presbiterianos, que teriam recebido uma revelação em que Deus lhes ordenava estabelecer a nova Igreja. Hoje ela tem templos em vários países, inclusive Canadá e Japão.

A Igreja Cristã Maranata tem uma característica notável. Seus clérigos – obreiros, diáconos, pastores e ministros, todos homens, obrigatoriamente casados, a não ser que tenham enviuvado após terem começado a exercer a função – não recebem nenhum tipo de remuneração; o dízimo é todo destinado a sustentar as sedes e as atividades da Igreja. O próprio pastor Ubirajara é agente de negócios de importação e exportação. As fiéis que fiquei conhecendo se orgulham muito do fato de seus pastores não receberem nenhuma remuneração, o que para elas reforça a moralidade da Igreja. Nisso está implícita uma crítica a outras Igrejas, em que os sacerdotes, padres ou pastores, são sustentados, muitas vezes no luxo, pelos fiéis.

Para o pastor Ubirajara, o que a Igreja Cristã Maranata representa na sociedade é “a palavra revelada, a palavra de esperança”. Dito de outro modo, as palavras da Bíblia e as revelações feitas por Deus, seja a pastores, seja a fiéis, dão condições aos crentes de enfrentar o duro mundo em que vivemos, que seria sem esperança sem a religião. Os adeptos da Igreja estão bem conscientes das ligações entre os problemas da globalização, da sociedade brasileira e da religião. Tanto que o pastor Ubirajara inclui entre os “sinais de que a segunda vinda de Jesus está próxima”, os fatos de que “um terço das espécies vivas e das florestas já está destruído, as guerras e os rumores de guerras, a situação em que os pais ficam contra os filhos e os filhos ficam contra os pais, as contaminações por vírus”.

Para as fiéis que conheço mais, o que a Igreja Cristã Maranata representa na sociedade é um porto seguro dentro do torvelinho da globalização, que as trouxe da roça para a dinâmica e cruel urbanidade de São Paulo e, principalmente, uma orientação segura, dada por homens equilibrados (por serem casados) e nada interesseiros (por não receberem remuneração), diante dos contrastes e confrontos e das rápidas mudanças do mundo em que vivem. A Igreja, para elas, encarna o ideal de vida tradicional a que aspiram: a constituição de uma família digna e a vivência de uma vida dignificada pelo trabalho e pelo respeito mútuo.

A Igreja Presbiteriana, desde os seus inícios no século 16, em Genebra, na Suíça, se caracterizou por seus pastores serem eleitos pelos fiéis. Mas os antigos presbiterianos que se tornaram os fundadores da Igreja Cristã Maranata sofreram um “avivamento pelo Espírito Santo” e os novos pastores são escolhidos entre os diáconos candidatos por diáconos e pastores que recebem uma “revelação”. Em outras palavras, seria Deus que escolhe os pastores.

Apesar dessas aparências pentecostais e neopentecostais, os fiéis da Igreja não demonstram nenhuma “americanização” de suas concepções. Ao contrário, várias fiéis que conheço são partidárias de Fidel Castro e de Hugo Chávez, embora saibam que Fidel é ateu e que em Cuba há “igualdade sem desenvolvimento”. São muito críticas em relação aos Estados Unidos. De modo que não podemos interpretar sempre a globalização como desnacionalização ou americanização – cada caso de religião que sofre o influxo da globalização é um caso específico e como tal deve ser estudado.

O rito da Igreja Cristã Maranata
Assisti a um culto na Igreja Cristã Maranata da Aclimação, conduzido pelo pastor Ubirajara. Num salão de duas fileiras de bancos de madeira em que caberiam cerca de 150 pessoas, havia perto de 70. O salão tem pé direito alto e teto de madeira de duas águas, com as paredes de alvenaria brancas contrastando com a cor de madeira escura do teto e das colunas de madeira que interrompem as paredes intercaladamente. O púlpito é de madeira lavrada e fica no centro do que seria o altar. Há um prolongamento lateral onde ficam os músicos com seus instrumentos, fora da visão da grande maioria dos fiéis. Há entre o lugar dos músicos e o púlpito um telão em que uma fiel projeta mensagens e letras de louvores. Luminárias modernas e discretas, penduradas do teto, criam um ambiente ao mesmo tempo acolhedor e elegante.

O culto começa com todos os fiéis se ajoelhando, em prosternação ao Senhor Jesus. Em seguida são cantados em coro três louvores, a Jesus, ao Pai e ao Espírito Santo. Notável é que um dos louvores diz: “A fartura que há na casa do Senhor/ Nada se compara ao que vês aqui/ Tudo isso Deus preparou para ti”. Ou seja, a Igreja aparentemente promete fartura a quem seguir com fé e sinceridade os seus mandamentos de vida digna, trabalho digno, aplicação ao estudo, e vida digna no trabalho, na família e na sociedade. No entanto, após os louvores, o pastor explica que “vida” não se refere à vida cotidiana, mas à vida eterna.

Mesmo assim, na maior parte do tempo se trata de problemas da vida concreta. Se seguem a leitura e a interpretação pelo pastor de versículos do Livro de Samuel que tratam de Davi. A interpretação não fala da vida eterna, mas da vida concreta dos fiéis: o pastor compara a “carne” representada por Golias ao “espírito” encarnado por Davi, que faz o que todo fiel deve fazer: louva o Senhor, é sisudo nas palavras, gentil no comportamento, valente na luta contra o Mal representado pelos “gigantes” que todos têm de enfrentar no dia a dia. A história de Davi se torna uma alegoria da luta que todos enfrentam contra o mal. “Qual o gigante que nos afronta?”, pergunta o pastor – e somos tentados a responder que é o gigante da globalização, o gigante das injustiças e desigualdades da sociedade brasileira.

O rito prossegue com cerca de 25 fiéis – mais de um terço do total presente – prestando depoimentos individuais sobre suas aflições e fazendo pedidos sobre doenças em família, brigas em família e outros problemas concretos que estão enfrentando. Há fiéis de todas as etnias, a maioria das classes populares, mas alguns das classes médias e mesmo médias altas.

O clima no final é de exaltação, entoa-se um hino vibrante e o pastor se despede, depois de fazer um anúncio sobre as próximas atividades.

Valores estéticos
A Igreja Cristã Maranata tem, nas palavras do pastor Ubirajara, uma estética “revelada” por Deus”: o formato do púlpito e dos bancos foi “revelado” a seus fundadores, bem como a arquitetura de seus templos, sendo os mesmos em todas as igrejas Maranata em todos os países. Além dos contrastes entre a madeira escura das colunas e do teto e o branco das paredes, o único ornamento são vasos de folhagens, sem flores. Os pastores portam ternos escuros e gravata; os fiéis estão com roupas mais bonitas do que usam no trabalho, as fiéis em geral bem maquiadas.

Valores morais
O que chama a atenção entre os valores morais da Igreja Cristã Maranata são os seus incentivos a uma vida de trabalho e familiar regrada e a uma grande aplicação nos estudos. Há uma preocupação central em bem educar os jovens e em cada um buscar sempre e a cada momento ser “uma pessoa melhor”. É muito importante o exemplo – “Não posso pregar o que não pratico”, diz o pastor Ubirajara.

Símbolos e significados
Não há símbolos visuais na Igreja Cristã Maranata. Nem mesmo a cruz sem o Cristo, ostentada por tantos templos de diferentes Igrejas evangélicas que não aceitam imagens, aparece na fachada ou sobre o púlpito, ou em qualquer lugar ou impresso. “Somos fiéis a um Deus vivo e não a um Deus morto, que tem boca mas não fala”, explica o pastor Ubirajara.

No entanto, a vivência dos fiéis é repleta de significados. A cada momento, por suas ações, o crente está “louvando o Senhor” e “sendo salvo”, ainda que esteja lavando roupa ou falando a uma criança.

Conclusão
A conclusão geral é que os fiéis da Maranata dela esperam uma alta moralidade e uma orientação que lhes permitam ter uma vida digna, pois vivem num mundo em que a alta moralidade e a vida digna escasseiam. Em outras palavras, para esses fiéis a religião não é “o ópio do povo”, ao contrário do que escreveu Marx, mas, como também escreveu Marx, “o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem alma, o espírito de um mundo sem espírito”. 


 
RENATO POMPEU - 1941-2014

Renato Pompeu nasceu em Campinas, SP, em 1941, mas sempre morou em São Paulo. Em 1960 entrou no curso de Ciências Sociais da USP e no mesmo ano começou a trabalhar como jornalista, tendo atuado na Folha de S. Paulo, na revista Veja e no Jornal da Tarde, além de outras publicações. Ganhou três Prêmios Abril e um Prêmio Esso de Jornalismo, por trabalhos sobre males do coração, males do tabaco e futebol. Como escritor, tem 22 livros publicados, entre ficção e não-ficção. Atualmente colabora na Caros Amigos, Carta Capital, Diário do Comércio e Diário de S. Paulo, além do blog. Dos 22 livros publicados, destacam-se os romances "Quatro Olhos" (1976), "Samba-Enredo" (1992), ambos pela Editora Alfa-Ômega, e "O Mundo como Obra de Arte Criada pelo Brasil" (2008), pela Editora Casa Amarela. De não-ficção, "Memórias da Loucura" (1983), pela Alfa-Ômega, "Globalização e Justiça Social" (1996), pela Editora Scortecci, e "Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória" (2002), Ediouro.